quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A Chegada

Rio de Janeiro, 04 de abril de 1986, um dia maravilhoso com céu aberto perfeito para pegar uma praia, mas, é bem longe dela que estão sendo transportados os futuros recrutas do Corpo de Fuzileiros Navais. E dentre eles está também Ramos, um rapaz cheio de esperanças e ilusões.
Com cabelos encaracolados e compridos que chegavam até a altura de seus ombros.
Ramos podia ser confundido com um dos adeptos de Bob Marley, usava naquele dia camisa quadriculada, aquelas de tecido de flanela, semi-aberta até a altura do peito e com as mangas da camisa enroladas até o antebraço, carregava consigo também, uma câmera fotográfica pendurada no pescoço. Parecia pensar que estava indo para uma colônia de férias.
Ele estava semideitado no primeiro assento do ônibus que os levavam do centro da cidade do Rio de Janeiro para o Centro de Recrutas em Campo Grande através da Avenida Brasil. com os pés para o alto sobre o ferro que separava a escada de acesso do primeiro banco.
Ramos estava vivendo um momento mágico e imaginava que conseguiria mudar o destino de sua vida para melhor, ingressando no Corpo de Fuzileiros Navais.
Sonhava em fazer exercícios todos os dias, aprender a manusear armamentos, atirar e acima de tudo, fazer parte de uma tropa de elite respeitada em todo o mundo, uma força tarefa que todos os dias estariam em atividade para melhorar técnicas e táticas militares, isso sem contar que, receberia salários para poder fazer suas festinhas.
Agora, a caminho do CR-FN (Centro de Recrutas do Corpo de Fuzileiros Navais). Em um comboio de quatro ônibus escoltados por mais ou menos seis batedores, com suas sirenes ligadas, fechando todos os cruzamentos existentes, liberando o caminho para que os ônibus trafegassem sem problemas. Tudo aquilo fazia lembrar a cena de um filme hollywoodiano.
Ramos estava se sentindo como se fosse uma autoridade. Ao passar por carros na Avenida Brasil, acenava para as meninas curiosas, as quais retribuíam com muita satisfação os galanteios de Ramos, mas, ele não sabia que seu passeio terminaria em breve. Terminaria para ele e para seus companheiros, que com certeza, deviam estar sentindo a mesma emoção.
Ao chegarem ao portão principal do CRFN, os ônibus foram abordados por sentinelas do Centro de Recrutas do Corpo de Fuzileiros Navais, e através do telefone avisaram a presença dos novos recrutas à sala de estado (recepção, onde fica o oficial de plantão).
Sem que os recrutas soubessem, dentro do CRFN todos os instrutores assumiram posições estratégicas para aguardá-los.
Liberada a entrada, então os novos recrutas assumiram olhares de admiração e a ansiedade tomou conta de todos, Ramos prontamente, começou a fotografar tudo à sua volta, queria registrar cada momento.
Ao entrarem no pátio da Bandeira, local bem amplo, cercado de prédios e localizado no centro do quartel, ouviram o toque de uma sirene que soou sem parar. Neste momento, os instrutores apareciam de todos os lados, descendo as escadas, correndo com seus bastões reluzentes e assumindo posição de superioridade diante dos novos recrutas. Era uma cena bonita e ao mesmo tempo assustadora.
Começou a chamada em ritmo frenético e quem era chamado devia descer do ônibus e entrar em uma formatura, a obedecerem as ordens dos instrutores que eram muito complicadas para quem jamais havia tido contato com tais mecanismos e quando erravam sofriam castigos diversos. Os primeiros a chegarem à formatura, ficaram mais cansados, mas os que chegavam por último, tinham que compreender rápido os comandos que eram dados pelos instrutores, pois diante de cada erro, os recrutas eram penalizados exemplarmente.
Sem parar de fazer exercícios, debaixo de um sol fortíssimo e sem poder sair da formatura, todos foram levados para frente da barbearia e aí começaram as transformações, os recrutas entravam cabeludos e voltavam totalmente carecas, a combinação do suor com os pelos no corpo era de matar, causava muita coceira e a sensação de calor aumentava.
Com comandos de senta-levanta. O instrutor só precisava trocar a posição da mão e todos eram obrigados a entender o que ele queria ordenar com aquele gesto e quem não acompanhava os demais, sofria castigo extra.
- Despreparado! - Gritava o instrutor com um recruta que demorou a atender ao seu comando.
- Você está querendo complicar meu serviço? - Todos ficaram assustados.
- Vem comigo! Vem comigo! - Agarrando-lhe pelo braço, o puxou para fora da formatura, atropelando quem estivesse pela frente, o recruta foi conduzido aos tropeços e quase levou um tombo devido à tamanha força que ele foi levado para fora da formatura.
- Eu vou te mostrar o que você deve fazer! – Então, neste momento, o sargento ordenou que outro recruta saísse da formatura e atendesse seus comandos feitos por gestos aconselhando a todos que prestassem atenção, pois a partir daquele momento não se admitiria mais dúvidas, que agora seria apenas dívida saber executar os comandos determinados.
- Aprendeu infeliz? Entendeu o que você deve fazer?
- Agora volte para a formatura, seu despreparado! – Empurrando o recruta contra a formatura que novamente tropeçou e quase caiu devido à tamanha força que foi conduzido.
Ramos, já estava meio arrependido de estar ali, e quando se deu por conta, o instrutor o pegou-lhe pela gola da camisa, que estava semi-aberta e o levantou, puxando-o até seu encontro gritando em seu rosto, tão perto que Ramos chegou a sentir a saliva do instrutor atingir seu rosto, bem como o hálito exalado da boca do instrutor.
- Feche essa camisa, despreparado! Você está pensando que está na casa da sua mãe? – Ramos abotoou até o último botão existente em sua camisa e bem depressa.
- Não quero ver mais ninguém aqui com a camisa aberta! Se eu pegar mais um engraçadinho com a camisa desabotoada, vou mandar direto para o jacaré!(local com água parada e suja, onde existe uma corda para transpô-la e onde quem não tem prática, acaba caindo dentro dela).
- Entendido! - Gritou o instrutor e ninguém o respondeu.
- Entendido! - Gritou novamente e obteve o mesmo resultado, pois ninguém sabia o que fazer.
- Vocês querem me sacanear? - Gritou com uma cara muito enfezada.
- Vou mostrar pra vocês, quem sacaneia quem, aqui!
- De frente para o Sol! - Gritou o instrutor e todos se viraram para o Sol.
- Não seus despreparados! Eu sou o sol! Aquele é o Astro-Rei!
- De frente para o sol! - Gritou novamente e todos se viraram para ele, que já os aguardava, na posição de flexão, e dali mesmo ordenou:
- Flexão um, dois! - E todos assumiram a posição de flexão rapidamente. Mas, tudo que eles faziam, o aborrecia e logo o instrutor se levantou dizendo com a cara enfezada.
- Quando eu disser flexão um, dois! Vocês deverão responder três, quatro! Entendido! - E novamente ninguém o respondeu e assim ele explicou:
- Quando eu disser “entendido!”, todos devem responder;
- Entendido sim senhor!
- Entendido! - Gritou mais uma vez, e assim todos responderam:
- Entendido sim senhor! - Então deixou que todos executassem as dez flexões e continuou com o senta-levanta.
Todos já estavam exaustos e então diante daquele Sol, ou seja, do Astro-Rei, chegou um taifeiro, com uma bandeja de aço e em cima dela, uma jarra de vidro transparente, cheia d’água e com muitas pedras de gelo, as quais faziam a jarra suar. O instrutor perguntou a todos, se estavam com sede, mas ninguém era tolo de dizer que sim, o taifeiro serviu-lhe um copo bem cheio, então num só gole, tomou a água com satisfação, deixando que a água caísse pelo pescoço propositalmente, para que todos sentissem mais sede e desejo de saborear aquela água, aquele gesto causou um grande sofrimento.
Mas o sofrimento maior ainda estava por vir. Quando chegava a vez de ser executado o serviço no barbeiro, o recruta devia sair correndo para dentro da barbearia e quando tentava fazer a curva na calçada correndo, devido a todo aquele agito, não havia quem conseguisse ficar sem escorregar vindo a cair ao chão.
Quando chegavam diante da cadeira do barbeiro, atordoados, não percebiam que existiam dois pezinhos desenhados ao chão, os quais, eles deviam parar exatamente em cima e como não sabiam deste detalhe o barbeiro já ordenava que o recruta pagasse dez flexões de braço e depois disso é que ele avisava que era para o recruta ficar com os pés encima daquele local.
Após todos estarem sem um fio de cabelo em suas cabeças, e estarem pingando suor, com pelos grudados em seus corpos, causando-lhes coceiras, não podendo nem mesmo se mexer, acreditem o incômodo era horrível, todos foram conduzidos ao rancho (refeitório) e Ter que almoçar naquelas condições.
Após terem almoçado, tiveram que entregar suas roupas suadas e sujas, para serem guardadas em um saco de lixo e junto com suas roupas todos os seus pertences, não podendo restar nada, deviam entregar tudo: relógios, câmeras fotográficas, pulseiras, cordões, etc... Eles não podiam nem mesmo continuar com suas cuecas ou até mesmo com uma aliança de casamento.
Todos ficaram absolutamente nus e sem qualquer objeto em seus corpos ou em suas mãos, neste momento foi entregue um saco verde para cada recruta e em fila indiana passavam pelos soldados que introduziam todo o material necessário para a estadia deles naquele local.
Cada objeto que era entregue ao novo recruta, era fornecido de forma violenta, os soldados colocavam nos sacos com a cara enfezada o material. Após este evento, todos foram conduzidos ao alojamento, para tomarem banho e colocarem suas novas roupas que lhes foram entregues.

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